Resumo

Este artigo tem como temática o contexto histórico e o processo de implementação do Caminho de Cora Coralina. A trilha de longo curso tem início em Corumbá de Goiás e segue por Cocalzinho de Goiás, Pirenópolis, Caxambu, Radiolândia, São Francisco de Goiás, Jaraguá, Vila Aparecida, Alvelândia, Palestina, Itaguari, Itaberaí, São Benedito, Calcilândia e a Cidade de Goiás, totalizando 300 km, no Estado de Goiás, Brasil. Assim, daremos ênfase às contextualizações históricas, ações políticas, voluntárias e culturais das organizações envolvidas, que permeiam a implementação do caminho.

 

 

Fonte: Wikipedia / Autor da imagem: Gabriel Breves

 

 

Ainda no século passado, quando participava de expedições por esse Planalto Central afora, munido de documentos históricos, mapas do Exército e bússola, tendo como grande mentor o finado historiador Paulo Bertran, cerratense mor, já se conversava sobre o quanto essa região foi ignorada pelos formuladores da política do turismo no Brasil e, ao mesmo tempo, e por isso mesmo, o quanto ela permaneceu guardando seus principais atributos: nascentes de águas cristalinas que fluem para todos os cantos do Brasil, Cerrado preservado em toda a sua diversidade e imensas áreas muito pouco habitadas, por se tratar de região serrana imprópria para atividade agrícola em larga escala.

Seguia-se as linhas tracejadas dos referidos mapas que indicavam trilhas e caminhos antigos que levavam ao Goiás profundo, cruzava-se rios a vau, e muitas vezes era necessária a utilização do guincho do próprio jipe para transpor obstáculos. E, assim, foi nascendo uma rede de caminhos que, na sequência, subsidiaram traçados de roteiros turísticos construídos ao longo desses mais de 20 anos. Era a origem das Trilhas de Longo Curso no Planalto Central.

Resultante dessas expedições, publiquei em 1998 o guia turístico Por Onde Andar – Roteiros Turísticos Comentados – Nordeste Goiano, composto por 3 roteiros: Terra Ronca, Kalunga e Chapada dos Veadeiros, que somados chegava próximo a mil quilômetros, onde indicava opções para jipeiros e ciclistas; em 2000 publiquei o Mapa Turístico de Pirenópolis, com aproximadamente 200 km de rotas para caminhantes, ciclistas e jipeiros. Em 2004, idealizado pelo historiador Paulo Bertran, iniciou-se o projeto Estrada Colonial no Planalto Central, do qual fui o coordenador executivo durante os cinco anos que perdurou o projeto. Tratava-se de um roteiro turístico que ligava o Parque Nacional Grande Sertão Veredas a Goiás Velho, num percurso de aproximadamente 800 km.

O roteiro turístico Caminho de Cora Coralina, ideia esboçada em 2013 pela Secretaria de Planejamento de Goiás, teve como premissa a construção de um roteiro que integrasse as cidades históricas de Corumbá de Goiás, Pirenópolis, Jaraguá e a Cidade de Goiás. Fiz parte da equipe que elaborou o projeto, com a incumbência de apresentar uma proposta de roteiro que valorizasse aspectos históricos, naturais e empreendimentos turísticos relevantes ao longo do percurso, numa rota turística para caminhantes e ciclistas.

O roteiro corresponde a um trecho da antiga Estrada Colonial aberta nos anos 1730 que ligava Salvador/BA a Vila Bela da Santíssima Trindade, primeira Capital do Mato Grosso. Por ele passaram tropeiros, naturalistas, cientistas, políticos e revolucionários que deixaram suas impressões em estudos, textos, desenhos, aquarelas e poesias. A região foi berço, também, de escritores ilustres, dentre eles uma das maiores escritoras e poetisas brasileiras, Cora Coralina, nascida na Cidade de Goiás, onde viveu sua infância e sua velhice e onde escreveu sua história deixando todas as suas recordações. A ela presta-se merecida homenagem dando seu nome a este roteiro.

Para a definição do traçado tomou-se como principais fontes documentais: o relato de viagem “A Jornada a Goiás de Luís da Cunha Menezes, desde Salvador, em 1778”, quando este veio empossar-se no Governo da Capitania de Goiás; os livros “Viagem à Província de Goiás” e “Viagem ao Interior do Brasil” dos naturalistas Auguste de Saint- Hilaire e Johann Emanuel Pohl respectivamente, que passaram por esses caminhos entre 1818 e 1821; “Viagem às Terras Goyanas”, de Oscar Leal, extraordinário relato escrito nos anos 1880; e o “Relatório Cruls” – Relatório da Comissão Exploradora do Planalto Central do Brasil que explorou, entre 1892 e 1893, uma ampla região do entorno do Distrito Federal para definir a localização da nova Capital do Brasil; e como fonte inspiradora o livro História da Terra e do Homem no Planalto Central, do historiador Paulo Bertran.

Destes, o mais importante documento que norteou a pesquisa de campo foi o diário de viagem de Cunha Menezes, minucioso, relata com detalhes os 44 dias de viagem desde Salvador até Vila Boa, atual Cidade de Goiás, para onde veio tomar posse. A comitiva deixou Salvador em 29 de agosto de 1778, indo por água até a vila de Cachoeira, de onde partiu dia 2 de setembro em lombo de burro, chegando a Vila Boa em 15 de outubro. No trecho de Corumbá de Goiás a Vila Boa, onde se desenvolve o Caminho de Cora Coralina, a comitiva andou por 3 dias, num percurso de 34 léguas, ou seja, 204 km, como a seguir é relatado pelo próprio Cunha Menezes:

13/10 – Das Mamoneiras ao Arraial de Meia Ponte 8 léguas, a saber a Ponte Alta 1, ao Rio Corumbá 3, a Vendinha 2 e 2 a Meia Ponte, primeiro arraial por esta parte da capitania de Goyaz, muito calor, boa água e mau caminho.

14/10 – De Meia Ponte a Lagoa Grande 10 léguas, a saber ao Rio das Pedras 3, ao Roza 2 e 5 a Lagoa Grande, calor, mao caminho por entre matos mui altos, morros e corgos frios mas boa água.

15/10 – Da Lagoa Grande a Ponte de Ouru 13 léguas, a saber ao Pouzo Alto 3, a Casa de Telha 5 e 5 à Ponte do Ouru. Da Ponte de Ouru neste mesmo dia pelas seis horas da tarde se continuou a marcha ao Capão 3 léguas, ao Ouro Fino 1,5 e 3 a Vila Boa onde se chegou a uma hora da noite contando, com estas 7 léguas, 37 marchas.

Saint-Hilaire veio ao Brasil em 1816 influenciado pelo Conde de Luxemburgo, aqui permanecendo até 1822. Durante seis anos viajou por boa parte do país em lombo de burro e em canoas, enfrentando toda a espécie de percalços. Por Goiás andou em 1819. Seus relatos são uma importante fonte de informações sobre história, geografia, etnografia e em particular a Fauna e a Flora.

Johann Emanuel Pohl, médico, mineralogista e botânico, um dos renomados cientistas da Missão Austríaca que veio ao Brasil por ocasião do casamento do Príncipe Dom Pedro com a Arquiduquesa Leopoldina, percorreu por mais de três anos as capitanias do Rio de Janeiro, de Minas Gerais e de Goiás, adentrando nesta em janeiro de 1819. Seu diário de viagem é uma das mais valiosas fontes de consulta para o estudioso da história econômica e social brasileira.

Oscar Leal, carioca, recebeu formação literária em Portugal, exercia a profissão de dentista e era exímio animador teatral. Versátil, inquieto, curioso e boêmio segundo o pesquisador baiano Sacramento Blake, Leal realizou uma série de viagens pela América Ibérica. Acometido por um momento de tédio em sua vida, tomou um trem de ferro em São Paulo, iniciando uma longa viagem pelas terras goianas, tendo vivido em Pirenópolis, no período da segunda fase da mineração do ouro, ocorrida na região do Abade entre 1880 e 1887, testemunhando a ascensão e queda da Companhia de Mineração Goiana comandada pelo francês Bernard Alfred Amblard Arena.

Paulo Bertran, anapolino, muito mais do que um historiador um poeta, músico, humanista, autor, dentre outras, da extraordinária obra História da Terra e do Homem no Planalto Central, livro obrigatório para quem quer se aprofundar no conhecimento sobre o Centro-Oeste brasileiro. Cunhou a expressão Homo Cerratensis para designar o homem resultante da miscigenação do índio, do português e do africano: “vagamente ateu, com inclinação às superstições, mais céptico do que fatalista, temente aos caprichos da Varia Fortuna, o cerradeiro ou cerratense é por excelência um homem barroco …”. Amigo, companheiro de grandes expedições em busca de referenciais históricos do período colonial, me ensinou a ter um curioso olhar sobre a região, foi meu grande inspirador para as pesquisas e formulação de roteiros de viagens, alguns se transformando em guias turísticos. Rendo uma especial homenagem a ele neste Caminho de Cora Coralina.

Lançados num mapa do Exército escala 1:100.000, os percursos feitos pelos viajantes mostraram um desenho preliminar dos principais pontos de passagem. Nomes de rios, córregos, povoados, fazendas, sítios e outras referências geográficas, algumas facilmente identificáveis na atual paisagem, serviram de início da pesquisa de campo. Foi, também, de fundamental importância para a definição do traçado as informações obtidas de moradores locais que, em alguns casos, acompanharam as expedições exploratórias em busca de locais citados nos documentos, ou em longos bate-papos onde a tradição oral difundia fatos e feitos ocorridos na região.

No transcorrer da pesquisa de campo foram identificados povoados, alguns esquecidos no tempo, que mereceram especial atenção na definição do traçado, assim como a cidade de São Francisco de Goiás, fundada em 1740, que a princípio não constava do projeto, passou a integrar o roteiro. Estradas cavaleiras, picadas e servidões de passagem que cruzavam fazendas foram alvo de conversação com seus proprietários que, com algumas exceções, se interessaram desde o início, alguns virando importantes parceiros. É o caso do Seu Quinzinho, humilde fazendeiro próximo ao povoado de Caxambu no município de Pirenópolis. Foi o primeiro proprietário a receber um grupo de seis caminhantes para um pouso e refeições e, quando recebeu os R$ 480,00, comentou: “isso significa 700 litros de leite, e ainda tem que entregar na cooperativa”.

Durante 5 meses, entre interpretação de documentos e pesquisa de campo, num vai e vem por fazendas e picadas, o roteiro foi tomando identidade: 8 povoados identificados, antigas fazendas, o Arraial de Ouro Fino onde restam somente ruínas da igreja, o túmulo do Chico Mineiro imortalizado na música de Tonico e Tinoco, dentre outras referências.

Concluído o projeto em 2013, somente em 2017 foi iniciada sua implementação pela Goiás Turismo, que ofereceu apoio em sua estruturação através do Programa Experiências na Natureza, viabilizando a inclusão dos Parques Estaduais dos Pireneus e da Serra de Jaraguá no roteiro, mobilizando as comunidades locais e dando os primeiros passos para a organização da Associação Caminho de Cora Coralina. Ao mesmo tempo, o ICMBio projetava as trilhas de longo curso pelo Brasil afora, contemplando o Caminho de Cora Coralina como a parte mais ocidental do Caminho dos Goyazes, que ligará a Chapada dos Veadeiros a Cidade de Goiás, num roteiro de mais de 1000 km.

 

 

 

A sinalização implementada hoje no Caminho de Cora Coralina segue as instruções do Manual de Sinalização de Trilhas do Instituto Chico Mendes de Conservação – ICMBio, 2018.

O quadro abaixo mostra por onde passa o roteiro e suas principais características:

 

 

 

Em importância histórica primeira está a Cidade de Goiás, primeira Capital do Estado, fundada em 1727 com o nome de Arraial de Sant’Ana, passando a se chamar Vila Boa de Goyás em 1739. Hoje, Cidade de Goiás, guarda um importante patrimônio arquitetônico e cultural que mereceu da Unesco o título de Patrimônio Histórico da Humanidade em 2001. Dos municípios por onde passa o roteiro, Pirenópolis é o principal e o mais bem estruturado para receber o turista, com mais de 400 pousadas, número semelhante de restaurantes e mais de 50 cachoeiras. Fundada nos idos de 1730 com a descoberta do ouro nas margens do rio das Almas, teve seu apogeu até os anos 1800 quando esgotou o ouro de aluvião. O turismo alavancou sua economia a partir dos anos 1990 vindo num permanente crescimento, transformando-a num dos principais destinos turísticos de Goiás. Dada a riqueza de seu patrimônio histórico, foi tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional em 1988. É um caminho de História – cinco cidades fundadas entre os anos 1727 e 1740, importantes fazendas surgidas após o ciclo do ouro, como é o caso da Fazenda Babilônia em Pirenópolis e a Fazenda Gonçalo Marques em São Francisco de Goiás que até hoje produzem aos moldes do século XIX.

É um caminho de Natureza – Cerrado nas suas diversas fisionomias, rios e córregos em abundância, parques, serras, vales, fauna abundante e, particularmente, logo nos primeiros 30 km, transpõe-se o Divisor Continental de Águas, aquele que separa as águas que vão para o Norte das águas que vão para o Sul do país, desaguando em Belém do Pará as do Norte e em Buenos Aires as do Sul.

Além disso, é um caminho Gastronômico – culinária tradicional apresentada nos pontos de apoio em fazendas, povoados e cidades, com suas particularidades regionais, doces caseiros e utilização de temperos e produtos naturais oriundos do Cerrado, exemplo típico a Castanha de Baru.

É, sobretudo, um caminho de Poesia – ao longo dos 300 km do roteiro foram instalados, em locais estratégicos, 60 painéis com poesias de Cora Coralina que revelam, em sua essência, a natureza humana dessa que é considerada uma das mais importantes escritoras brasileiras.

Lançado oficialmente em abril de 2018, com uma expedição de ciclismo que reuniu um grupo de ciclistas capitaneado por Raiza Goulão, ciclista de renome internacional, o Caminho de Cora Coralina vem promovendo um desenvolvimento crescente em cidades e povoados por onde passa, assim como a adesão de fazendeiros e chacareiros que já se estruturam para receber o turista. Em menos de dois anos o caminho já foi percorrido, no todo ou em parte, por mais de mil ciclistas e caminhantes, e regionalmente ocorrem cavalgadas em parte do roteiro.

O caminho está todo sinalizado com pegadas identificadas com o nome CORA, utilizando-se a metodologia aplicada pelo ICMBio – Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade nas trilhas de longo curso que ora estão sendo implantadas em todo o Brasil. Todo o caminho foi sinalizado em cooperação com grupos de voluntários, Goiás Turismo e prefeituras municipais.

Nesse período de menos de dois anos de implementação do roteiro, estruturou-se uma rede de empreendimentos capaz de atender a caminhantes e ciclistas que o percorrem. No caso de caminhantes, é indicado faze-lo de 12 dias a 15 dias, em média 25 km por dia, tendo estrutura de pouso e refeições que atendem a grupos ou individualmente.

Em março de 2019 foi fundada a Associação Caminho de Cora Coralina formada por empreendedores, cujos objetivos, dentre outros, é implementar, controlar, manter e desenvolver o roteiro, promovê-lo em todos os âmbitos e fomentar o empreendedorismo em todo o seu percurso.

Em outubro de 2019 foi lançado o Passaporte do Peregrino, documento que após ser carimbado ao longo do percurso, credenciará o turista a receber o Certificado. Os pontos de carimbo estão informados no site e o passaporte poderá ser adquirido em Corumbá de Goiás, onde começa o caminho, em Goiânia, Brasília e Cidade de Goiás. É possível adquiri-lo, também, pela internet.

A implementação deste roteiro está sendo possível graças às ações de voluntários, de servidores públicos de alguns municípios, de associados da Associação Caminho de Cora Coralina, operadores de turismo e conta com apoio institucional da Agência Estadual de Turismo – Goiás Turismo.

 

 

Bismarque Villa Real

Autor do roteiro: Bismarque Villa Real, engenheiro civil, pesquisador, explora a região em expedições, visitando locais singulares, percorrendo rotas bandeirantes em busca de referenciais paisagísticos, históricos e culturais. É proprietário do Sítio Lavrinhas, local de pouso do Caminho, e foi o primeiro presidente da Associação do Caminho de Cora Coralina.