Entre as montanhas do centro do Estado de Goiás surge o mais novo destino de cicloturismo e esportes ligados ao mountain bike do Brasil. E ele tem nome, pai e mãe.

Raíza Goulão Henrique nasceu em Pirenópolis, Goiás, no dia 28 de fevereiro de 1991. É ciclista brasileira especializada no mountain bike. Representou o Brasil nos Jogos Olímpicos de Verão de 2016 no cross-country feminino do ciclismo.

Raíza se tornou bicampeã pan-americana sub-23 ao vencer as edições de Pueblo em 2012 e Tucumán em 2013. No adulto, conquistou a medalha de prata nos Jogos Sul-Americanos de 2014 em Santiago. Representou o Brasil também nos Jogos Pan-Americanos de 2015, evento em que ela terminou em 5.º lugar no cross-country.

Em 2016 conseguiu vaga para os Jogos Olímpicos de Verão de 2016 ao terminar a fase de qualificação entre as 20 melhores nações no ranking mundial. Terminou a competição olímpica em 20.º lugar no cross-country feminino. No ano de 2017, conquistou o tricampeonato Brasileiro de Cross Country Olímpico (XCO). Em 2018, foi campeã do Campeonato Pan-Americano de MTB, em Pereira, na Colômbia. Em Janeiro de 2019, após uma temporada de 02 nos na Espanha, Raíza, voltou ao Brasil para integrar a equipe Corinthians/Audax, camisa que defende atualmente.

Voltando ao dia 18 de Abril de 2018, Raíza liderou um time de ciclistas do Estado de Goiás e convidados, dentre eles líderes de cicloturismo da Logísitca Aventura, para percorrer o Caminho de Cora Coralina em seus 300 quilômetros em 03 dias de pedaladas. Não foi fácil acompanhar a campeã! A cicloviagem marcou o lançamento e a entrega do Projeto Caminho de Cora Coralina, idealizado pelo historiador Bismarque Vila Real, que há muitos anos, estudava com afinco os caminhos do ciclo do ouro no Estado de Goiás e recriou as suas rotas, conectando-as.

Uma prosa com o Bismarque é muito interessante. Histórias de época dos vilarejos prendem a atenção das pessoas que o escutam falar com muita propriedade dos acontecimentos, que não são poucos, e se sucederam com o tempo, ao longo dos 300 quilômetros de rotas estudadas e catalogadas. Bismarque hoje é o presidente da Associação do Caminho de Cora Coralina, entidade responsável por representar institucionalmente a trilha de longo curso e que conta com mais de 40 associados, empresários, intelectuais e lideranças. Bismarque vive no alto da Serra dos Pireneus, aproximadamente 30 quilômetros depois do ponto de partida do Caminho de Cora, em sua propriedade que se chama Sítio Lavrinhas. O sítio oferece chalés e refeições para quem deseja pousar por lá. Além disso, possui um sitio histórico da época do garimpo, com construções antigas e uma bela cachoeira banhada pelo principal rio do Parque Estadual dos Pireneus, adjacente à sua propriedade, que se chama Rio das Almas.

Bismarque, junto com o turismólogo João Bitencourt Lino, à época Gerente Executivo da Goiás Turismo, abraçaram esse projeto e o realizaram com a colaboração fundamental de muita gente. Convidaram então a atleta exponencial do Estado de Goiás, Raiza Goulão para liderar a viagem inaugural. Não poderia mesmo ser outra pessoa. Raíza formou-se como ciclista nas montanhas e trilhas por onde está o Caminho de Cora Coralina atualmente. Raíza não teve dúvidas, topou na hora!

A viagem de Raíza foi incrível. Ela, em nossos bate papos, lembra sempre com muita saudade daqueles dias:

“A gente lembra bem das mesas fartas de comida típica oferecida em cada vilazinha que passávamos”

Mas a campeã não podia muito deliciar-se; a dieta de atleta é rigorosa e isso convertia-se em um certo sofrimento. Um grande parceiro da Logística Aventura, o amigo Lavir e a sua esposa Érica sempre nos surpreendem com suas deliciosas comidas oferecidas na Estância Colher de Pau, um ponto de apoio com possibilidade de pernoite para grupos que fica à margem do Caminho de Cora Coralina, na chegada à cidade de São Francisco de Goiás. Por lá, nessa primeira noite da expedição, Lavir fez um belo arroz de carreteiro, à moda goiana e, segundo ele, a Raíza quebrou a dieta. Enfim, está perdoada. A iguaria é irresistível mesmo. Apesar de duvidarmos muito dessa história do Lavir.

A Casa foi construída por volta de 1770 teve vários moradores,dentre eles: Capitão-Mor da coroa portuguesa, falecido em 1804, Capitão José Joaquim Pulquério dos Santos, após a sua morte foi alugada ao Secretário do Governo da Capitania, Coronel José Amado Grehon. Em 1825, foi posta em hasta pública pela Fazenda Real e adquirida pelo Sargento-Mor, João José do Couto Guimarães, trisavó de Cora Coralina, passando a pertencer à família até 1985, quando a Construtora Alcindo Vieira, de Belo Horizonte a adquiriu e a doou à Associação Casa de Cora Coralina. Tem 16 cômodos, um amplo quintal e uma bica d’água potável, totalizando 3.000 m2. Trecho da obra: “Minha Casa Velha da Ponte… assim a vejo e conto, sem datas e sem assentos.” In: Estórias da Casa Velha da Ponte, Global, 2012; por Cora Coralina

Cora Coralina foi uma poetisa nascida na cidade de Goiás. Sua identidade é tão intima à identidade dos goianos que Cora é símbolo de orgulho para o seu povo. Suas poesias estão estampadas em placas e totens ao longo dos 300 quilômetros do caminho e proporcionam momentos de reflexão e inspiração aos peregrinos que o percorrem: “é transformador”, afima Raíza Goulão.

A viagem é arrebatadora. O site da Associação do Caminho de Cora Coralina www.caminhodecoracoralina.com.br traz muitas dicas, pontos de apoio, pontos de pouso, atrativos turísticos, canais de interação, tracklogs e mapas de todo o percurso além de direcionar os pontos de venda dos Passaportes do Caminho que poderão ser carimbados nos estabelecimentos associados para a certificação ao final do percurso. Várias fotos da cicloviagem da Raíza Goulão também estão no mural.

Outra jóia lapidada do turismo de Goiás e o principal destino do moutain bike do centro oeste, em especial de pessoas que vivem nas cidades de Brasília-DF e de Goiânia-GO é a cidade de Pirenópolis. Praticamente equidistante entre as duas capitais, Piri, chamada carinhosamente por todos, é um município histórico, sendo um dos primeiros do estado de Goiás. Foi fundado com o nome de Minas de Nossa Senhora do Rosário Meia Ponte pelo minerador português Manoel Rodrigues Tomar. As minas da região foram descobertas pelo bandeirante Amaro Leite, porém foram entregues aos portugueses por Urbano do Couto Menezes, companheiro de Bartolomeu Bueno da Silva, o Anhanguera Filho, na primeira metade do século XVIII. Segundo a tradição local, o arraial foi fundado em 7 de outubro de 1727, porém não há documentos comprobatórios e muitos historiadores e cronistas antigos afirmam ser a fundação em 1731.

Foi importante centro urbano dos séculos XVIII e XIX, com mineração de ouro, comércio e agricultura, em especial a produção de algodão para exportação no século XIX. Ainda no século XIX, com o nome de cidade de Meia Ponte, destacou-se como o berço da música goiana, graça ao surgimento de grandes maestros, bem como berço da imprensa em Goiás, já que ali nasceu o primeiro jornal do Centro Oeste, denominado Matutina Meiapontense. Uma vez que citamos aqui o primeiro jornal do Centro Oeste, o poeta Leo Lynce diz, nos seguintes versos decassílabos: Que mundo de emoções experimento,/ ao recordar-te gleba hospitaleira/ – berço da imprensa de Goiás -, primeira/ luz acesa no nosso pensamento. Em 1890, a cidade teve seu nome mudado para Pirenópolis, o município dos Pireneus, nome dado à serra que a circunda. Ficou isolada durante grande parte do século XX e redescoberta da década de 1970, com a construção da nova capital do país, Brasília. Hoje, é famosa pelo turismo e pela produção do quartzito, a Pedra de Pirenópolis.

Pedalar por uma trilha em Piri é considerado patrimônio imaterial da cidade. Com a grande quantidade de montanhas e cachoeiras que a circundam, os aventureiros atacaram as trilhinhas dos garimpos e dos currais de gado da região e as transformaram em parques de diversão a céu aberto. Piri recebe todas as atividades ligadas à bike. Podemos encontrar na cidade as modalidades desde o Down Hill, até as provas duríssimas de XCM e XCO. Mas um bike tour é quem comanda o pedaço. Pela proximidade de Brasília e Goiânia, muitos grupos dessas cidades promovem várias pedaladas pela região, tornando um destino cobiçado e prazeroso por todo cicloaventureiro. Eles têm razão: não há nada melhor que um pedal em Piri e um banho de cachoeira para refrescar e lavar a alma!

Raíza está em Pirenópolis neste período de isolamento social em função da pandemia COVID-19. Mas a atleta não fica quieta. Além de estar se dedicando arduamente aos seus treinos nas montanhas que cercam a cidade, ela resolveu juntar a sua turma e construir uma incrível pista de Cross Country Olimpico (XCO). Essa pista está em um lugar privilegiado, cercado de matas virgens e nascentes em um lugar de preservação permanente, tombado pelo município. Alí, do alto do Morro do Frota, se pode ver o melhor pôr do sol da cidade. É por ali que ficaremos ao final de nossos bike tours do Piri Ride, o bike tour de Pirenópolis, até o sol se por. Nossa pousada, está logo ali embaixo, a 2 quilômetros. Raíza, você nos presenteou com algo muitíssimo especial!

Raíza não mora em Pirenópolis. Ela vive em Itajubá-MG em razão dos treinamentos da Equipe Corinthians/Audax a qual pertence. Raramente a atleta pode estar viajando por sua cidade e é muito difícil encontrar um tempo na agenda para percorrer com mais assiduidade os 300 quilômetros do Caminho de Cora Coralina. Além do mais, a agenda de competições é extensa. Mas nós já fizemos o convite à Raíza e ela topou fazer com a nossa turma uma nova viagem por um desses destinos. Deve pintar em breve, não é isso, Raíza?